Saturday, November 14, 2009

...as trevas estão por aí, escondidas, à espera que eu apague a luz para se lançarem sobre mim...

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar; olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar, e não mal-disse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar e nem deixou-a só num canto, p´ra seu grande espanto, convidou-a p´ra rodar. Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar, com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar. Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar e cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar.
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou. E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou. E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais que o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz.

Saturday, October 31, 2009

Olga Diz


Olga diz que não quer viver comigo
Olga diz preferir a solidão
Olga diz que foi tudo uma ilusão
Olga diz que me quer só como amigo

Pois não pode continuar
Na tristeza de se enganar
Não suporta esse poder de praticar a possessão
A castração

Olga diz que do lar não é rainha
Olga diz que precisa respirar
Olga diz ter saudades do luar
Olga diz ter gostado de ser minha

Mas não pode continuar
Na torpeza de me enganar
Não suporta esse sofrer de se sentir em possessão
Em castração


Adolfo Luxúria Caníbal
para
Mundo Cão

Wednesday, October 28, 2009


Para mim o
amor
fica-me justo


Eu só visto
a paixão
de corpo inteiro



Maria Teresa Horta

HR Giger

Friday, October 23, 2009

Quando eu nasci,
Ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
Nem o Sol escureceu,
Nem houve Estrelas a mais...
Somente,
Esquecida das dores
A minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
Não houve nada de novo
Senão eu.
As nuvens não se espantaram,
Não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
Bastava
Toda a ternura que olhava
Nos olhos de minha Mãe...


Sebastião da Gama

Wednesday, October 14, 2009

Conversa em Voz Alta


- Não quero que ninguém me dê conselhos! - dizia a moça, em voz alta.

E continuou, no mesmo tom:

- A vida é minha e gosto de, antes de fazer o melhor, tentar sempre o pior. Depois, então, se o pior me causou qualquer arrependimento ou mal-estar, faço o melhor. Mas não tenho sorte, nove entre dez pessoas que se aproximam de mim, antes do bom-dia, dizem sempre: «Vou lhe dar um conselho.» Eu queria saber de uma coisa:«Por que é que só dão conselhos às mulheres bonitas?» Está bem, eu tenho vinte e dois anos, tenho olhos grandes, pernas grossas e tudo. Então, os homens, em seu reles fingimento de paternidade, estão sempre dispostos a achar que eu posso proceder de uma maneira melhor! Eu queria saber de uma coisa: «Quando eu tiver quarenta anos, os olhos ficarem pequenos e as pernas finas, ainda vão me dar conselhos?» Não vão. Então deixem eu errar agora. Não é que eu queira, propriamente, errar. Eu quero escolher - você me entende? É muito melhor a gente errar desamparada do que acertar pela mão dos outros. O que é que eu faço de mau? Fumo, gosto de música e tenho um namorado. Todas as pessoas dizem que o meu namorado não presta. Mas todas as pessoas dirão sempre que o namorado actual não presta. Depois, quando a gente acaba, todas as pessoas, as mesmas pessoas, vão dizer que o viram, que estava bonito, inteligente e honesto. Também não gosto de dar conselhos a ninguém. E conheço, quando vêm pedi-los. è a mesma conversa de sempre. Começam dizendo:«Eu fiz uma coisa horrorosa!» Dizem a coisa horrorosa e, por mais horrorosa que seja, eu digo invariavelmente que já fiz ou estou muito inclinada a fazer. Em resumo, não gosto que se metam em minha vida, enquanto eu tiver os olhos grandes e as pernas grossas.

E o homem sentado à sua frente, que a ouvia em silêncio respeitoso, tragou profundamente o seu cigarro e começou uma frase, exactamente, assim:

- Olhe aqui, minha filha, eu vou lhe dar um conselho...



António Maria (1921-1964)

in «Benditas Sejam as Moças»



Tuesday, October 13, 2009

Quem disse?


Quem disse
que esta ausência te devia?

Quem pensou
que esta denúncia se enganava?

Que um dia era pior
que outro dia
Que à noite era melhor
porque sonhava?

Quem disse
que esta dor te pertencia?

Quem pensou que este amor
me perturbava?

Que o longe era mais perto
se fugias
Que o dentro era mais longe
porque estavas?

Quem disse
que este ardor te evidência?

Quem pensou que esta pena
me cansava?

Que calar era pior
se te despia
Que gritar era pior
se te largava?

Quem disse
que esta paixão me curaria?

Quem pensou
que esta loucura me passava?

Que deixar-te era paz
porque corria
Que querer-te era mau
porque te amava?

Quem disse
que esta paixão te espantaria?

Quem pensou
que esta saudade me rasgava?

Que tudo era diferente
se te via
Que o pior era saber
que aqui não estavas?

Quem disse
que esta ternura te devia?

Quem pensou que este saber
se enganava?

Neste langor crescente
que crescia
Neste entender de nós
que cintilava?

Maria Teresa Horta

Sunday, September 27, 2009

canção do Engate

Tu estás livre e eu estou livre
E há uma noite para passar
Porque não vamos unidos
Porque não vamos ficar
Na aventura dos sentidos

Tu estás só e eu mais só estou
Tu que tens o meu olhar
Tens a minha mao aberta
À espera de se fechar
Nessa tua mão deserta

Vem que o amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que o amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te dás

Tu que buscas companhia
E eu que busco quem quiser
Ser o fim desta energia
Ser um corpo de prazer
Ser o fim de mais um dia

Tu continuas à espera
Do melhor que ja não vem
E a esperança foi encontrada
Antes de ti por alguém
E eu sou melhor que nada


António Variações